domingo, 31 de maio de 2009

e foi tudo em um sonho...

No encontro noturno, entre os céus... ou o além... lá esteve você e eu.

E da sua singela fala, emaneceu seu amor por mim.


E da dúvida, fez-se a certeza... no mais singelo momento único do tempo.


Te amei desde que toquei por primeira vez que toquei sua mão, lembra-se?


E você disse, e lembrei-me... estava lá na foto... era preto e branca, ou tons de cinza...


No recorte dos dedos, encaixavam-se perfeitamente os meus...


Foto da vida, do momento único a se guardar na memória.


Em outras, não era eu... força da produção, da onde, em princípio, eu não caía bem...

Mas tinha que ser eu... e no seu coração, era eu. E agora eu sei...

Mas o que faço frente ao sonho que se foi, e a lembrança que ficou?


Movo-me? Ato-me ao sonho? Mergulho no escuro claro que se acendeu?


Mas... quantos sonhos já sonhei... e quanto tempo já vivi...


E você me disse, e me beijou, eu te amo...


E me abraçou e me abarcou no seu ser... eterno...


Eterno e singelo meu.

E eu?

E eu.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Ensaio sobre a burqa...

Já diria minha irmã que não existe o Oriente, que este á uma costrução mítica tanto instaurada por Delacroix como por seus comparsas... em um ato evidentemente selvagem de unir a todos em uma só massa.

De acordo, mas meu pensamento de inicia com...

Tudo que vem do Oriente nos provoca fascínio.


As vestes, vestimentas, árabes, indianos, sons feitos com a língua, a dança contida, ou de serpente... e os panos, panos, dourados, bordados, amassados, lisos, contínuos e compridos.

Ai, aqueles panos... e o próprio esconder para preservar.

Não sei se é mal de antecedente o que sinto e como ajo, mas meu povo é sírio-libanês. Ao menos, em parte.

Lá viria ela novamente me dizer... tudo é cultural, nada de explicações genéticas e tal.


Mas meu pensamento continua com...


Bom, esse corpo tem informação que pode ter sim tido mutação genética por hábitos e condutas culturais externas.

Volta e meia cubro meu rosto. Não á moda árabe ou indiana... apesar do fascínio.


Faço-o com meu chachecol ou o esquentador de pescoço, que tenho.

Então, a percepção toda muda.

Sempre preocupada com o quesito segurança, meu olhar é inquieto e os ouvidos estão sempre alerta.

Nos vidros do carro a fresta impera. O som é desligado para estacionar. O corpo reaje ao simples barulhos estranho. Os olhos espicham...

Mas, com "a burqa"... a percepção toda muda.


A visão lateral não alcança em seus devidos graus. A audição fica filtrada, tapada, velada. Enxerga-se em "uma só direção", o Norte.

Os olhares avivam-se. Não sei se por estranheza a curiosidade.
Então, pensei comigo. E, enfim, a que propósito direcionar olhar, velar audição...
A interiorização incomoda a certo, ponto...
E quem aprendeu a se guiar, consegue aprender a ser guiada?
Eterna vida de ceder-se!

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Para o moço no fundo do vagão...

O que te desconcerta
Sossega ou Apressa seu olhar?

Sou eu ou a janela que se move por imagens estáticas?

Estranho teu manho.

Tuas mãos são mãos que aceitam e desconhecem.
(Tuas mãos são que acertam e desconcertam)

Agora não te vejo mais.

Por onde andam seus olhos?
(Por onde anda teu olhar?)

Parou onde? Na próxima estação?

Só o vão do ombro vermelho ficou

(transcrito ao som de Yann Tiersen)
(em janeiro/2008 - no trem - SP - ao retorno a Curitiba)
(Themis Salem)

sexta-feira, 27 de março de 2009

Os nossos sonhos...

Quem não tem sonhos, que atire a primeira nuvem passageira.
Sonhos são os desejos que nos movem e parecem dar sentido a nossa vida e nossos atos.
Mas, enfim, será que é só para isso que servem os nossos sonhos?
Pergunto-me isso, atualmente. O dilema entre o dever, real, o querer ser... onde está o divisor de águas?
A plena necessidade de sustento físico, que certamente apoia o sustento espiritual, faz-se presente.
Mas é possível querer e ser, ao mesmo tempo?
Como saber? Tentando?

Eu tenho sonhos, alguns "bobos", por assim dizer. E eles me alimentam. Por vezes, consomem-me.
Consomem-me quando não consigo realizá-los. Mas, se pensarmos que sonhos são para ser sonhos... só servem para nos mover e não serem realizados... então, contradigo-me.

Meus sonhos partem dos mais simples ao mais luxuosos.
A banda de música que ainda quero ter. Minha vida como um musical. O sonho a dois e a casa com cômodos em estilo mundial. O pé-direito alto. Não o meu, o da parede. Escrever e entreter. Ensinar a ser mais, alguém, livre das amarras da vida. Os três filhos, que hão de vir. A paz, entre si e entre todos. A igualdade e não sofrimento do próximo. Andar de patins nas ruas do expresso. Dançar e dançar e dançar e dançar e dançar a vida toda, sentindo prazer e proporcionando prazer. Olhar e ser olhada. Registrar a vida do seu mais ínfimo ao mais grandioso momento pela lente angular. Beijar a sobrancelha em um ato de amor. Estar preparada para salvar vidas. Escrever e escrever e escrever e escrever mais, para dizer o que penso, sinto, vejo, indago, reajo... almejo e desejo. E assim, ser completa em mim.

São muitos, são caros e baratos... mas são meus, e por isso são grandes. São meus e por isso são preciosos...

Quem sabe um dia... quem sabe.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

No final da prateleira

Ele era sempre deixado no final da prateleira, como se fosse vergonha ser como ele era. Não, ele não era igual aos outros e sempre que algum cliente perguntava “E aquele, Seu Moura?” ele respondia “Tá com defeito, por isso é que está tão barato assim”. E com essa resposta o cliente sossegava, comprava outra coisa e ia embora.

E ele, lá no final da prateleira tentava se ajeitar, ajustar-se, e fazer aqueles “bips” como “bips” e não “borótibipeps”. Forçava sua voz, até às vezes chegar ao cúmulo de recarregar as suas energias em poucos dias, pois se cansava para tentar se conformar nos ditos padrões. E foi assim, durante 7 anos, até que resolveu “Quer saber? Vou afinar-me e cantar em lírico meu “borótibipeps“.

Certo dia estava ele a cantarolar (fora de hora) e entrou na loja um cliente que ele nunca tinha visto. Foi incrível, o velho cliente de Seu Moura, Magus, grudou os olhos nele e ele grudou os olhos no cliente. Então apareceu Seu Mora: “Olá Magus! Há tempos não aparece, não é?” e ele respondeu “Aquele ali, quanto é?”, e Seu Moura responde “Qual? Aquele? Ah! Está com defeito... o senhor não vai querer...”, “Quanto é?” retrucou Magus, “Está há tanto tempo aí que o senhor pode levar se quiser”. Magus nem pensou sete vezes, pediu para Seu Moura embrulhar porque daria de presente.

Chegando em casa, Magus entrou em seu quarto, olhou para o espelho e disse: “para você com carinho”, desembrulhou o relógio e colocou-o na cabeceira, no lugar mais privilegiado e durante muitos séculos bateu longos e instrutivos papos com ele.

É, Seu Moura não acreditava em objetos mágicos, foi por isso que não deu atenção quando sua sobrinha lhe trouxe aquele livro de capa roxa. É, Seu Moura nunca leu um conto-de-fadas.

Themis Robert Salem (15/09/2003)