Ele era sempre deixado no final da prateleira, como se fosse vergonha ser como ele era. Não, ele não era igual aos outros e sempre que algum cliente perguntava “E aquele, Seu Moura?” ele respondia “Tá com defeito, por isso é que está tão barato assim”. E com essa resposta o cliente sossegava, comprava outra coisa e ia embora.
E ele, lá no final da prateleira tentava se ajeitar, ajustar-se, e fazer aqueles “bips” como “bips” e não “borótibipeps”. Forçava sua voz, até às vezes chegar ao cúmulo de recarregar as suas energias em poucos dias, pois se cansava para tentar se conformar nos ditos padrões. E foi assim, durante 7 anos, até que resolveu “Quer saber? Vou afinar-me e cantar em lírico meu “borótibipeps“.
Certo dia estava ele a cantarolar (fora de hora) e entrou na loja um cliente que ele nunca tinha visto. Foi incrível, o velho cliente de Seu Moura, Magus, grudou os olhos nele e ele grudou os olhos no cliente. Então apareceu Seu Mora: “Olá Magus! Há tempos não aparece, não é?” e ele respondeu “Aquele ali, quanto é?”, e Seu Moura responde “Qual? Aquele? Ah! Está com defeito... o senhor não vai querer...”, “Quanto é?” retrucou Magus, “Está há tanto tempo aí que o senhor pode levar se quiser”. Magus nem pensou sete vezes, pediu para Seu Moura embrulhar porque daria de presente.
Chegando em casa, Magus entrou em seu quarto, olhou para o espelho e disse: “para você com carinho”, desembrulhou o relógio e colocou-o na cabeceira, no lugar mais privilegiado e durante muitos séculos bateu longos e instrutivos papos com ele.
É, Seu Moura não acreditava em objetos mágicos, foi por isso que não deu atenção quando sua sobrinha lhe trouxe aquele livro de capa roxa. É, Seu Moura nunca leu um conto-de-fadas.
Themis Robert Salem (15/09/2003)