Nada de incomum naquela noite... um bar, velas e sozinha na mesa, como usual. Ouvia ao fundo os passos os garçons e as músicas que saíam de um bom e velho jukebox comprado há quinze anos. O bar simplesmente não era meu. E não o tinha por falta de oportunidade.
Minha história inicia no dia da compra dos LPs. Ele era moreno, alto, tinha o corpo esguio, mas forte, moderadamente. Nada exagerado, mas ele exalava um quê de mistério. E vendia os discos dos quais eu precisava. "Quanto"? - perguntei. E ele me respondeu: "use à vontade, quando quiser de volta eu aviso". Devera saber que nada vinha de graça.
A música que tocava lembrava-me Janis Joplin. Um ar de sensualidade com gritos exalados por cordas vocais mal tratadas. Não percebi quando se aproximou. "Quero-os de volta!". Foi essa a frase, simples, seca e direta. Ela me reportou ao passado, a promessa feita e ao benefício oferecido. Quem teria 15 anos de música gratuita e não seria assim o fim? Olhei para o alto lá estava ele, um pouco mais robusto e como ar encantador que a idade oferece aqueles de bons ares. Quase não o reconheci.
"30%, se não se importa". 30% de quê? - pensei eu. E disse: "perdão, não compreendi..." Ele repetiu: "30%". Minha mente já não respondia. Encontrava-me dentro de uma ambulância a caminho do pronto-socorro. As sirenes rodavam e gritavam. Aquele barulho importunava-me.
Passaram-se 30 dias. "Acorda, acorda...". Meus olhos abriam lentamente o meu corpo flutuava sobre a mesa. "Hahaha..." - eu ouvia risadas de crianças ao fundo. De um embaçado sem fim me chegaram a imagem de duas pessoas vestidas de branco. Eram médicos, creio eu. Escuridão.
Mais 60 dias. "Ela está aqui, mamãe... Venha ver, venha ver... logo vai acordar!". As mãos daquela animada criança tocavam os meus dedos da mão esquerda. Voltei abruptamente.
"AH!" - gritava meu corpo. "Afastem-se!". Abro os olhos, sem nenhuma dor... um choque elétrico que percorria o meu corpo se manifestou a minha latente retina. E eu cai.
Tum! Tum! Tum! Tu tum, tu tum, tu tum... tuuuuuuuuuuuuuuuu...
Tudo branco.
Era um quarto comum. Fora da UTI há três dias. Que alívio. Depois de um tempo aquele homem voltou. Sua robustez dentro do terno branco me alinhava a uma não existência corpórea.
"Onde estou?" - olhei para ele. Perguntei, o som saiu... mas não mexi os lábios. "Melhor se perguntasse como você está" - ele me disse e continuou - "Missão cumprida, Dundys".
[continua, em algum outro dia frio da humanidade...]
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