E nós abaixo. Sem nenhum questionamento pontual.
Não há: "porque não estamos acima da lua?".
Aceitamos o nosso lugar.
Neste momento, em plena Rua XV - repleta de amarelo - chamas-me para dançar.
O simples pousar de mãos ao ar, com a palma virada para cima, uma leve inclinação do tronco frente a mim... move-me em tua direção.
É como uma ímã... atração pela onda sonora que não se esvai pelo universo.
É tom que permanece. Afina-se em harmonia do encontro.
Minha mão em tom suave toca a tua. No topo, pois assim comandantes.
Ela é recebida com aprazo e com a firmeza ideal que me faz sentir mais perene.
Teu outro braço encontra a lateral do meu tronco e tu acomodas lentamente tuas mãos em meio às minhas costas.
Em um instante gentio sorrio-te. Não como as danças originais à lua. Apenas as bordas dos meus lábios projetam-se ao lado e acima proporcionalmente e ritmamente ao teu toque.
Aos sons encomendados da noite, em leve pressão, com meu corpo firme, mas flexível à vontade tua... levas-me para trás. TUM.
Apesar do salto dos sapatos meus nos petit-pavé - que se entrelaçam em sonhos e histórias - o chão parece transcrito de nuvens. TUM.
Dali já se faz um passo, meio do compasso quaternário. Desse ritmo que invade, pulsa e parece igualar-se às batidas do meu peito em encontro ao teu.
TUM e TUM.
TUM e TUM.
"Bolero, meu bem!".
"Compreendo, sinto e reajo - meu amor - ao teu tom".
E em um suave conduzir de um giro, todos os ventos trazem-me o perfume suave das tagetes laranjas que iluminam minha terra.
TUM.
Os ventos passam e levam-me a encostar meu rosto no teu... giro completo, passar de mãos firmes em busca do início
e TUM.
Em ti, novamente.
A suave canção retorna. Mais dez passos, que comprazem com o meio da canção que se apresenta.
Tem mais três. GIRO.
Com mais sete: SETE. GIRO. Tum... tum... tum...
Tu... tu tum... tu tum... tu tum...
Tu... tu tum... tu tum...
Tu... tu tum...
Os nossos corpos se acalmam... os compassos dão indício do fim. A música se completa, o enredo se afina, os acordes dizem a Deus!
Mas de se pensar que há um fim, existe o começo...
De mãos dadas, entre o alumiar amarelo e as negras e brancas pedras do chão... andamos em sentido ao encontro da próxima esquina que possa receber nossos passos.
Unidos, ritmados e em busca, porque não, do contra-ritmo, para a escrita do que é incomum.